terça-feira, novembro 29, 2005

Variação lingüística no Estado do Paraná.


“ A linguagem ideal seria aquela em que cada palavra (significante) designasse ou apontasse apenas uma coisa, correspondesse a uma só idéia ou conceito, tivesse um só sentido (significado). Como tal não ocorre em nenhuma língua conhecida, as palavras são, por natureza enganosas, porque são polissêmicas ou plurivalentes. Muitas constituem mesmo uma espécie de constelação semântica...” Garcia, 1996.

Sabemos que qualquer língua varia no tempo e no espaço, entre as classes sociais, entre profissões. Nunca é usada de modo homogêneo por seus falantes, principalmente no Brasil, graças ao tamanho do seu território e a variedade de etnias existentes por aqui.
Há uma variação lingüística tão rica em nosso país, que muitas vezes a língua torna-se quase que incompreensível mesmo dentro do Paraná, como mostra este trabalho. O Brasil, cujo povo é formado basicamente por imigrantes europeus, herdou ao longo de sua história de seus colonizadores, a Língua Portuguesa, mas esta misturou-se a tantas outras línguas: latim, indígena, inglês, espanhol, francês, dos escravos africanos, cujo idioma era o português e de tantos outros pertencentes aos povos que aqui se estabeleceram em diferentes regiões desse imenso país.
Vale lembrar que o Sul do Brasil foi colonizado, em sua grande maioria pelos europeus, e o Paraná, particularmente, em algumas regiões recebeu em maior ou menor grau, influências de italianos, alemães, portugueses, japoneses, ucranianos... E ainda a dos tropeiros que passaram por Ponta Grossa, Castro, Guarapuava, Pato Branco e pelo Norte Velho deixando suas marcas e costumes na culinária, vestimenta e nos falares. Formamos um mosaico de povos e falas que vão moldando o falar de nossa gente.
Na pesquisa, não nos atentamos ,neste momento, para o dialeto. Analisamos somente os significados de algumas palavras dentro de um contexto, comparando-as a outras regiões num mesmo estado, o Paraná. Nos limitamos ,simplesmente, por registrar palavras usadas na comunicação dos paranaenses.
O Grupo de Trabalho de Língua Portuguesa, ao iniciar esta proposta, não optou por seguir uma metodologia científica. A intenção foi usar as ferramentas de interação da Internet, o MSN, e-mail e Wiki, os blogs, para experimentar a produção colaborativa a distância com essas tecnologias. A metodologia usada está sendo discutida e implantada ao longo do desenvolvimento do trabalho. Nunca havíamos produzido nada semelhante, logo, o processo está sendo construído.
Surgiu a idéia, de cada um, a distância, fazer uma relação das palavras que variam quanto ao seu significado de região para região em nosso estado sem ater-se à classe social, à faixa etária, ao sexo feminino ou masculino ou ainda, quanto ao nível de escolaridade dos falantes. Não analisamos as diferenças fonéticas, ou seja, quanto à pronúncia dos falantes em nosso Estado. Desconhecíamos a existência de uma pesquisa da professora Vanderci de Andrade Aguilera da UEL que está inserida no projeto sobre o Atlas Lingüístico do Brasil.
O GT de Língua Portuguesa, inicialmente formado por 23 integrantes, distribuídos por todo Estado, onde foi lançado o convite no ambiente de interação Dokeos, http://www.dokeos.seed.pr.gov.br, com um link para a produção colaborativa, http://www.escolabr.com/virtual/wiki/index.php/Categoria:GT_Lingua_Portuguesa, com a intenção de facilitar a pesquisa. O Estado do Paraná foi dividido em seis micro-regiões, conforme a distribuição dos integrantes do grupo. E ainda foi lançado o desafio para que cada um convidasse outros internautas a participarem.
Assim foi sendo feito, até o momento, temos 19 contribuições com vocábulos que variam conforme a localização de cada um no estado. 16 contribuições de integrantes do GTLP e 03 de não integrantes. As sugestões das palavras são feitas em forma de redação em prosa e repassadas à tabela posteriormente por alguém do grupo.
As palavras sugeridas são dispostas num arquivo htm em forma de tabela com as 8 micro-regiões distribuídas em colunas coloridas (isto, para facilitar a localização de cada região dentro de sua região). A cada sugestão, a tabela é atualizada e enviada à pasta documentos do GTLP, Grupo de Trabalho de Língua Portuguesa, a qual fica disponível a todos os participantes, inclusive para atualizá-la.
O wiki é uma ferramenta para produção conjunta aberta aos internautas, tanto os integrantes do GT, quanto os convidados podem colaborar. Mas grande parte das palavras, até o momento, aproximadamente 110, foram “descobertas” através da interação pelo MSN, principalmente por 3 integrantes ativos.
Este trabalho colaborativo teria sido muito mais valorizado e rico, se todos os participantes do GT, de todas as regiões, tivessem participado ativamente. Percebemos que por inibição ou “desinteresse” muitos não fizeram/deram contribuições sobre os falares de sua região, o que torna difícil uma comparação efetiva sobre as variantes regionais.
Proposta de Trabalho

As palavras listadas surgem em conversas diárias ao aguçar o nosso ouvido para aquilo que os falantes pronunciam. Ao ouvirmos algo diferente, logo comparamos o significado dela ao de outra região. O ensino de Língua Portuguesa, nas escolas, está muito atrelado ao escrever, é necessário explorar muito mais a oralidade, o teatro, a dramatização, aguçar mais os ouvidos, treinar situações de fala em sala, pois as pessoas falam com muito mais riqueza do que costumam escrever.
O professor deve confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações em nosso meio, nas mídias escrita e falada.
Ao fazer uma reflexão de uso das palavras, não podemos estudá-las separadamente, devemos contextualizá-las. Como exemplo, podemos citar: se em Pato Branco ou Umuarama falamos quibebe, soa até mal, mas em Castro estão se referindo a uma comida feita à base de abóbora. Mas entre esses usos diferentes, não se pode dizer que um é inferior a outro, e sim que existem usos diferentes.
Muitas das palavras listadas geram dúvidas sobre ser ou não ser uma variação no Estado. Requer que pesquisemos muito mais. A grande dificuldade encontrada é na falta de material para pesquisa. Não há, nas bibliotecas ou no mercado, material para validação das sugestões. Requer que estas sugestões sejam discutidas por mais pessoas que vivenciem as variantes lingüísticas no cotidiano.
O trabalho não termina, pois se faz necessário que outros continuam contribuam. O ideal é que ele seja ancorado num espaço onde qualquer internauta que a visite e esteja disposto a contribuir o faça. Principalmente por alunos e professores das escolas estaduais do Paraná através do Portal www.diaadiaeducacao.pr.gov.br, ou ainda no próprio, http://www.escolabr.com/virtual/wiki/index.php/Categoria:GT_Lingua_Portuguesa
Na Internet existem espaços onde os falantes podem participar, inserir suas idéias, suas palavras. Os assessores pedagógicos das CRTES criaram alguns espaços em que os alunos podem produzir ,interagir e inserir os textos dentro de sua região específica. “O importante é que a informação esteja sob forma de rede e não tanto a mensagem, porque esta já existia numa enciclopédia ou dicionário.” (Lévy, (1998).
Algumas sugestões de trabalho sobre a variação lingüística paranaense a nível vocabular usando a Internet como ferramenta de comunicação e socialização da produção para promoção da aprendizagem:
O livro virtual ( http://www.livre.escolabr.com/projetos/comunic ): pode-se propor que os alunos individualmente ou coletivamente, que recontem outras histórias de modo a variar o vocabulário, para isso vale recorrer à tabela com a listagem de palavras e sua significação em sua região. Após produzir seu texto, sugere-se que o insira no livro virtual para que outras possam lê-lo. “Cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão”. (Lévy, (1994).
Na blog possibilita-se criar novos espaços de comunicação como: diários on line, onde os alunos podem registrar seus sonhos, suas produções, suas aprendizagens. Também podem mostrar fotos através dos fotoblogs, interagir com outras pessoas, aqui o texto ganha uma outra dimensão: a da cooperação. E o produtor também ganha uma nova dimensão: o de produtor. Veja um exemplo de blog bem elaborado: http://www.radamesmanosso.blogger.com.br/
Observe o falar ao seu redor e participe da pesquisa podendo até criar uma listagem da variação lingüística das gírias do seu grupo, se sua cidade, seu estado a até do país.
Cabe ao professor traçar uma proposta de trabalho em sua escola para que os alunos usem a Internet como ferramenta de interação, de discussão, para propor atividades.

Referências:

Garcia, Othon M. Garcia – Comunicação em prosa Moderna - 1996 – 17ª edição – Editora: Fundação Getúlio Vargas.
Lévy, Pierre. A emergência do cyberspace e as mutações culturais. 1994. < http://www.unir.br/~primeira/artigo47.html >Acessado em: novembro de 2005.
Portal Dia-a-Dia Educação < http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br > Acessado em novembro 2005.
Blog: < http://www.radamesmanosso.blogger.com.br/ > Acessado em novembro 2005.
< http://fotolog.terra.com.br/variantes_linguisticas > Acessado em novembro 2005.
<> Acessado em novembro 2005.
< http://www.dokeos.seed.pr.gov.br > Acessado em novembro 2005.

< http://www.escolabr.com/virtual/wiki/index.php/Categoria:GT_Lingua_Portuguesa
> Acessado em novembro 2005.
< http://www.livre.escolabr.com/projetos/comunic/ >Acessado em: novembro de 2005.
< http://www.linguaportuguesa.ufrn.br/pt_index.php > Acessado em: outubro de 2005.
< http://www.estacio.br/rededeletras/numero7/postudo_extudo/default.asp>
Acessado em: novembro de 2005.
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/v00003.htm > Acessado em: novembro de 2005
< http://acd.ufrj.br/~pead/tema01/variacao.html > Acessado em: novembro de 2005.

Marcia de Lima Meira – CRTE Umuarama
Jovilde Lupattini – CRTE Pato Branco

sexta-feira, novembro 25, 2005

Palavra, um ser mutante

Vivemos dentro de muitas comunidades, em que palavras se diferenciam pela classe social, pela idade, pela região, pela formação cultural, intelectual, profissional. Vivemos sempre em busca de palavras que estão de acordo com as nossas convicções, grupos que têm a ver conosco, que por sua vez, estão sempre em constante evolução.

As palavras são variantes com a vida, que nunca é estática, caminha. Por isso, não podemos estar estagnados num só parecer com elas na norma culta, pois a variante da palavra está “onde povo está”. Lembre-se, que a nossa língua é variante de um latim vulgar, ou seja, vocabulário que partiu da população mais simples, porque a palavra se identifica com as nossas atitudes, nossas semelhanças.

Portanto, sermos mais aberto com a palavra significa sermos mais flexíveis com o nosso pensamento: buscando novas opções, desenvolvendo melhor nossa fluência, e assim melhorando nossa auto-estima. A comunhão entre palavras bem resolvidas mostra um crescimento e um amadurecimento fascinante!
Carla Valkíria Candido CRTE-Londrina


Com este blog pretendemos mostrar as variantes de todo nosso estado para que vocês, professores e alunos possam ter acesso à vocabulários diferentes, fazer comparações com os da sua localidade e interagir com a gente nessas variações através de textos, expressões ...

Curiosidades lingüísticas da Região Norte do Paraná

Aqui no Norte do Paraná, as pessoas chamam a correnteza do rio de corredeira. Quando a corredeira está forte é perigoso passar pela pinguela, que é uma ponte muito estreita feita, geralmente, com um tronco de árvore. Se temos muita chuva a pinguela pode ficar submersa e, portanto, impossibilita a passagem. Mas se ocorre uma manga de chuva, uma chuvinha passageira, esse problema deixa de existir. Contudo, uma manga de chuva pode aumentar a preocupação daqueles que trabalham numa roça de milho, pois durante a colheita, eles vão fazendo bandeiras de milho, ou seja, amontoando as espigas colhidas em pequenos montes e, se chove, mesmo que seja pouco, esses montes precisam ser cobertos rapidamente. Em épocas de fartura, as espigas vêm carregadas de grãos, porém, quando uma seca castiga a lavoura, a produção acaba sendo prejudicada, e aí em vez de espigas repletas de grãos, só se vê restolho, pra tristeza do agricultor. De vez em quando, acontecem acidentes no campo, como alguém tomar um mau jeito quando vai levantar um balaio de milho por exemplo, nesse caso tem o rubim, planta muito boa para se fazer emplasto. Pra dor de barriga fazem uso do chá da semente de erva doce. Na área rural, ainda encontramos muitas casas com fogão à lenha, nestas residências, a faxina deve ser cuidadosamente feita, pois caso contrário as paredes e telhados vão ficar cheios de picumã, sujeira produzida pela fumaça. As mulheres aqui, são muito vaidosas, gostam de passar batom nos beiços, ou seja nos lábios. Quando seus filhos são ainda bebês, ficam bem atentas, porque eles podem cair e bater a moleira, que é a parte superior da cabeça. Nesse período, ela é mole e um acidente envolvendo essa parte do corpo pode ser perigoso. Quando essas crianças crescem um pouco, os meninos, pra desespero das mães, adoram brincar com o estilingue, que em algumas regiões é conhecido como bodoque, aí... coitadas das vidraças e dos passarinhos mais incautos Antigamente, os moradores das redondezas, tinham o hábito de se reunirem na boca da noite para contar histórias, muitas vezes de assombração, que juravam ser verdade. As crianças que sofriam com isso, à noite dormiam com a cabeça coberta de medo do que ouviram. Hoje, isso se perdeu, a televisão tomou o lugar dos contadores de história e muitas palavras foram substituídas, porque novos hábitos sugiram.
Estas histórias criadas a partir das variantes regionais podem ser inseridas no livro virtual ou ainda podemos criar blogs e solicitar a participação das escolas de toda região. Os alunos farão pesquisas dos termos de sua região e criarão histórias com eles. Essa pesquisa deverá abordar o contexto histórico da região visando descobrir a origem dos termos. Podem aparecer aí também aspectos históricos, políticos e econômicos da região. A interação ocorrerá com os comentários que serão inseridos, por exemplo, alunos da região Norte comentam os textos que estão no Blog da região Sul, ressaltando as semelhanças e as diferenças dessas regiões, com isso aprendem a interagir virtualmente. Nesse trabalho deve ser usado o Paint para ilustrar as histórias, o world para digitar os textos, internet para pesquisas, pois dessa forma, os alunos vão aprender a explorar os recursos dos aplicativos, como: copiar, colar, verificação ortográfica etc.
Acredito que esse pode ser um bom exemplo de produção de texto, utilizando os vocábulos regionais e, a partir deles ir em busca da origem dessas palavras e dessa forma resgatar a cultura regional. Daí envolve leitura e produção. O que acham da idéia?
As palavras foram pesquisadas no Atlas Lingüístico do Paraná – Vanderci de Andrade Aguileira – Editora UEL
José Luiz Leite CRTE-Londrina